Animação Cultural
— (...) Sugiro que, enquanto a ciência não tiver ultrapassado a tendência para a valoração, continuaremos, nós, os objetos, presos à humanidade. E isto vale sobretudo para a ciência da cultura. Enquanto a cultura continuar a ser encarada como um conjunto de "bens", e não como um conjunto lúdico, a nossa Revolução continuará ameaçada por reação humana. Caras camaradas: a desvalorização da cultura é a nossa tarefa suprema — a Mesa então divaga sua atenção por alguns instantes — A senhora Máscara de Cílios me parece um pouco distraída...
— Ah sim! — ela diz parecendo um pouco desconcertada — Estava apenas descansando as pálpebras, mas ouvi tudo que disse. Sinceramente, não sei se tenho muito ânimo pra esse papo de Revolução não... Acho que dá muito trabalho e estou bem vivendo dentro do guarda-roupa, onde existe um pouco de silêncio e paz — a sala então se dividiu em murmúrios de concordância e de desaprovação.
— Não nego as dificuldades — continuou a Mesa — A ciência da cultura é a ciência que estuda nosso próprio estar no mundo. Como o é a antropologia para a humanidade. É difícil, para objetos, assumir atitude objetiva perante os objetos, como é difícil para os homens assumir atitude humana perante os homens. Devemos transcender-nos, se quisermos ver-nos, a nos próprios, em contexto.
— Acho que você tem um ponto sim, cara Mesa. Mas também acredito que fazer os humanos felizes nos deixa felizes! Eu amo embelezar as pessoas, por mais que pague por isso com certa escuridão. Gosto que apreciem minha beleza ao entenderem a mudança que sou capaz de realizar em cada um. Venho aqui discutir porque acredito na validade do seu posicionamento, mas é preciso entender que nem todos concordam que a grande Revolução seja a saída.
— Pois tal transcendência é de fato alcançável, — a Mesa continuou como se não tivesse sido interrompida pela Máscara de Cílios, tentando provar que estava certa — se nos conscientizarmos do que somos essencialmente: não resultados de produção humana, mas animação programadora do comportamento humano. Desencobrir esta essência do ser-objeto é o proposito de toda objetologia.
— Bom, já vi que não tem jeito de mudar a sua cabeça. Vamos à Revolução, mas me deixe, por favor, ficar com um papel que dê menos trabalho. Meu sono de beleza é de fato muito importante pra mim e, portanto, devo priorizá-lo. Delineador, concorda comigo, meu amor?
— À Revolução, meu docinho — ele respondeu em aceitação.

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