Análise do Espaço a partir de Hertzberger


Hertzberger apresenta em seu livro “Lições de Arquitetura” diversas abordagens sobre arquitetura e sobre a responsabilidade que se deve ter ao produzir um espaço. Com isso ele traz diversos conceitos que podem ser analisados cotidianamente em nossas vidas, surgindo o tema de abordagem dentro da disciplina.



Tendo como ponto inicial meu quarto, a análise se inicia. A sua forma promove grande liberdade de apropriação do espaço por ser um retângulo com medidas responsáveis por permitir deslocamento de móveis. Minha própria cama já foi colocada em mais de três posições diferentes ao longo dos anos. O espaço não é muito amplo então uma cama de casal deixaria o lugar bastante apertado, mas de maneira geral a forma é convidativa para explorações. A cor lilás foi uma escolha pessoal e acredito que seja atemporal até hoje. Sinto que toda a casa segue essa mesma lógica de que a estrutura permanece sempre a mesma, mas com novos revestimentos e pinturas, a aparência vai se modificando ao longo do tempo.



Ampliando-se a área de abordagem é possível ver que em minha casa os três quartos e o banheiro são os espaços mais privados, com uma gradação a partir da área externa da casa. A cozinha, sala e sala de jantar são acessadas diretamente por portas externas, sendo menos privadas que os quartos, por exemplo. Até o espaço da garagem e jardim ainda se diferencia do espaço do quintal. Por mais que essas três últimas áreas citadas sejam externas, ao ar livre, pelo fato de o quintal estar mais ao fundo da casa, o corredor que dá acesso a ele é como uma barreira simbólica para a visita. Sempre que alguém chega, acessa a rampa da garagem e é necessário reforçar o convite para que as pessoas desçam até o quintal.



Por observação e experiência, vejo que os lugares que mais incentivam a interação são a cozinha e o quintal. Geralmente na sala acaba acontecendo uma espécie de distração por conta da televisão, mas a cozinha é um espaço de muita conversa. Além disso, os degraus entre a sala e a cozinha e entre a garagem e a cozinha se tornam convidativos para o assento quando faltam cadeiras, ou por uma simples escolha também.

Infelizmente, a rua não atinge os ideais propostos por Hertzberger. O sentimento de que o espaço externo é de certa forma hostil e perigoso é o que prevalece. O tráfego não é intenso, mas os vizinhos não passam muito tempo na rua, que não é muito convidativa e aberta para a interação por sentimento crescente de insegurança. Em contraposição está o degrau entre a minha casa e a casa do vizinho, no passeio. Eu mesma já passei bastante tempo sentada nele, conversando quando ainda era criança, e a sensação é como a descrita no livro em relação a soleira: como se estivesse dentro e fora ao mesmo tempo, constituindo um “intervalo”.  

Um outro tipo de intervalo poderia ser definido pelo corredor que tem os quartos de um lado e o banheiro de outro. É possível então fazer uma escolha nesse momento. Por exemplo, se uma visita estiver no corredor, no caminho para o banheiro, as portas dos quartos podem estar abertas ou fechadas, convidando para adentrar no espaço, ou rejeitando também. Outro conceito de Hertzberger é passível de observação com a questão das portas: elas dão a escolha de interagir ou se isolar, permitindo ou impedindo o alcance do campo de visão.  

Em relação a flexibilidade de usos acredito que o espaço da sala e da sala de jantar sigam essa lógica, tanto que um já ocupou o espaço do outro em um momento anterior (o sofá ficava onde hoje está a mesa…). Acredito que a cozinha seja mais rígida para trocar as posições dos móveis e até trocar a função do cômodo, exigindo obras mais radicais que não são geralmente uma escolha confortável e prática. 

Em uma observação final, o muro sem permeabilidade visual torna minha casa um espaço mais restrito. No caso do vizinho, com grade, é possível observar e até deduzir se alguém está em casa ou não, mas no meu caso isso não acontece. Assim o muro não é só uma barreira física como também visual. Por mais que Hertzberger aborde bastante sobre a importância da gradação de espaços e maior contato com a  rua, vemos uma tendência diferente nas cidades grandes do Brasil, com maior isolamento das casas principalmente por uma questão de segurança contra invasões, assaltos... No interior a situação acaba mudando um pouco, mas não é o meu contexto de vivência.


Comentários

  1. Observa-se uma análise bem feita, demonstrando conhecimentos dos conceitos de Hertzberger e aplicando estes no seu espaço cotidiano. Além disso, ainda retrata sua experiência no local, o que leva a análise a uma maior profundidade.

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